
3 de set de 2026
A confiança das famílias de Belo Horizonte deu um passo à frente em agosto, mas ainda está longe de representar uma virada no comportamento de consumo. O Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), analisado pelo Núcleo de Estudos Econômicos e de Inteligência & Pesquisa da Fecomércio MG a partir da pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), subiu 2,1 pontos em relação a julho e chegou a 86,0 pontos. Apesar da melhora, o indicador permanece abaixo dos 100 pontos, faixa que representa uma percepção de insatisfação dos consumidores.
O resultado ajuda a desenhar um cenário de recuperação parcial da confiança. De um lado, as famílias percebem melhora em aspectos importantes, como emprego e renda. De outro, continuam demonstrando resistência em ampliar o consumo, especialmente quando se trata de bens duráveis. Para a economista da Fecomércio MG, Gabriela Martins, o movimento revela um consumidor que reconhece sinais positivos no orçamento, mas ainda prefere preservar espaço financeiro. “A melhora do índice mostra que as famílias estão um pouco mais confiantes, principalmente quando olhamos para emprego e renda. Mas essa percepção ainda não se transformou em uma disposição mais forte para consumir. O comportamento permanece cauteloso, especialmente diante das condições de crédito e da avaliação sobre compras de maior valor”, avalia Gabriela.
O mercado de trabalho aparece como um dos pontos mais positivos da pesquisa. O índice de emprego atual alcançou 105,6 pontos, alta de 3,6 pontos em relação a julho e de 3,5 pontos na comparação com agosto de 2025. Quase três em cada dez famílias, 29,4%, afirmam se sentir mais seguras em relação ao emprego do que no mesmo período do ano passado. Entre as famílias com renda superior a dez salários mínimos, o índice chega a 114,2 pontos.
A percepção sobre a renda também melhorou. O índice de renda atual passou de 97,8 pontos em julho para 102,5 em agosto, ficando 3,1 pontos acima do registrado um ano antes. Para 26,4% dos entrevistados, a renda familiar está melhor do que em agosto de 2025. O avanço, porém, não é uniforme: enquanto o índice alcança 113,9 pontos entre as famílias com renda superior a dez salários mínimos, fica em 100,8 pontos entre aquelas que recebem até dez salários mínimos. “Os indicadores de emprego e renda ajudam a explicar a melhora da confiança geral. Quando a família percebe maior segurança no trabalho e alguma evolução da renda, abre-se espaço para uma visão menos negativa do presente. O ponto de atenção é que isso ainda não significa uma mudança imediata no padrão de consumo”, explica Gabriela Martins.
É justamente nesse intervalo entre perceber alguma melhora e efetivamente consumir que aparece uma das principais mensagens da pesquisa. O índice de nível de consumo ficou em apenas 65,5 pontos. Embora tenha avançado 0,3 ponto no mês, o indicador está 10,8 pontos abaixo do registrado em agosto de 2025. Mais da metade dos entrevistados, 55,3%, afirma que a família está comprando menos do que no ano passado. Apenas 18,9% dizem estar comprando mais.
O cenário também é influenciado pelo acesso ao crédito. O índice subiu 2,7 pontos em agosto e chegou a 89,8 pontos, mas 38,2% dos consumidores consideram que está mais difícil conseguir empréstimos ou crédito para compras a prazo em comparação com o ano anterior. Entre as famílias com renda de até dez salários mínimos, o índice de acesso ao crédito é ainda menor, de 87,5 pontos. Para Gabriela, a combinação entre cautela e crédito ajuda a entender por que a melhora da confiança ainda não se converteu em uma retomada mais consistente das compras. “O consumidor pode até estar percebendo uma situação financeira um pouco melhor, mas, quando o acesso ao crédito continua sendo visto como difícil e o orçamento exige escolhas, a tendência é priorizar despesas essenciais e adiar decisões de maior valor”, afirma.
A perspectiva para os próximos meses é um pouco mais otimista. O índice de perspectiva de consumo ficou em 103,4 pontos, acima da linha de satisfação, embora tenha recuado 0,3 ponto em relação a julho e esteja 11,8 pontos abaixo de agosto de 2025. Na pesquisa, 36,9% dos entrevistados acreditam que o consumo da família e da população será maior nos próximos meses em comparação com o segundo semestre do ano passado. Outros 33,5% esperam um consumo menor.
O contraste entre a perspectiva futura e o consumo efetivamente realizado hoje chama atenção. A família demonstra alguma expectativa de melhora, mas ainda não acelera suas compras. “Esse descompasso é importante para o comércio. Existe uma parcela relevante de consumidores que enxerga possibilidade de consumir mais nos próximos meses, mas a decisão efetiva depende da evolução da renda, da segurança no emprego e das condições de financiamento”, observa Gabriela.
Quando a pesquisa entra no território dos bens duráveis, a cautela fica ainda mais evidente. O índice que mede a percepção sobre o momento para comprar produtos como eletrodomésticos e outros bens para a casa chegou a 54,4 pontos. Apesar de uma melhora de 2,7 pontos no mês, 72,6% dos entrevistados consideram que este é um mau momento para esse tipo de compra.
O comportamento é semelhante entre as diferentes faixas de renda, embora as famílias de maior renda apresentem uma percepção um pouco menos negativa. Entre os consumidores com renda de até dez salários mínimos, 73,3% consideram o momento ruim para a compra de duráveis. Entre aqueles com renda superior a dez salários mínimos, esse percentual é de 67,9%. Na avaliação da economista, os dados sugerem que o comércio deve lidar com um consumidor mais seletivo. “O cenário não é de ausência de demanda, mas de demanda mais racionalizada. O consumidor está avaliando mais antes de comprar, comparando preços, escolhendo prioridades e, principalmente, evitando comprometer o orçamento com compras que podem ser adiadas”, destaca Gabriela.
Para o varejo, a fotografia de agosto reforça a importância de estratégias que reduzam a barreira à compra. Condições de pagamento, preços competitivos, comunicação clara de benefícios e ofertas que façam sentido para o orçamento das famílias podem ajudar a transformar uma intenção de consumo ainda moderada em decisão efetiva.
O ICF é um indicador antecedente ao consumo, pois captura a percepção das famílias sobre emprego, renda, crédito e capacidade de compra antes que esses movimentos apareçam nos indicadores de volume de vendas. Por isso, o avanço para 86,0 pontos traz uma sinalização positiva, mas ainda exige cautela na leitura: a confiança melhorou, porém permanece em território de insatisfação, enquanto o nível de consumo continua bastante abaixo do observado um ano antes. “A leitura de agosto é de uma melhora gradual da confiança, mas não de uma mudança completa de comportamento. Para o comércio, o cenário exige atenção aos sinais de recuperação sem perder de vista que o consumidor ainda está administrando suas escolhas com bastante cuidado”, conclui Gabriela Martins.
Sobre a Fecomércio MG
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Minas Gerais (Fecomércio MG) é a principal entidade representativa do setor do comércio de bens, serviços e turismo no estado, que abrange mais de 750 mil empresas e 54 sindicatos. Sob a presidência de Nadim Elias Donato Filho, a Fecomércio MG atua como porta-voz das demandas do empresariado, buscando soluções através do diálogo com o governo e a sociedade. Outra importante atribuição da Fecomércio MG é a administração do Serviço Social do Comércio (Sesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) em Minas Gerais. A atuação integrada das três casas fortalece a promoção de serviços que beneficiam comerciários, empresários e a comunidade em geral, a partir de suas diversas unidades distribuídas pelo estado.
Desde 2022, a Federação tem se destacado na agenda pública, promovendo discussões sobre a importância do setor para o desenvolvimento econômico de Minas Gerais. A Fecomércio MG trabalha em estreita colaboração com a Confederação Nacional do Comércio (CNC), presidida por José Roberto Tadros, para defender os interesses do setor em âmbito municipal, estadual e federal. A Federação busca melhores condições tributárias para as empresas e celebra convenções coletivas de trabalho, além de oferecer benefícios que visam o fortalecimento do comércio. Com 87 anos de atuação, a Fecomércio MG é fundamental para transformar a vida dos cidadãos e impulsionar a economia mineira.